terça-feira, 26 de novembro de 2013

Olhos Alheios

    Sempre parava em frente aquela casa para apanhar o ônibus do outro lado da rua, mas nunca havia lhe dado muita atenção, não até essa tarde.
    Era uma grande casa cor creme, com uma varanda bem cuidada e enfeitada com flores, rodeada de muros baixos que permitiam ver até mesmo o quarto pela janela da frente.
    Mas o que realmente atraíra meu olhar a essa casa pela primeira vez não foi sua beleza, mas sim sua moradora. Uma jovem de longos cabelos castanhos, que estava sentada na mureta da varanda, com lágrimas no rosto, de olhos vermelhos de tristeza, enquanto encarava o portão distraída.
    No momento me vi interessado, não pela garota em si, mas pelos motivos que a faziam chorar. Uma súbita curiosidade tomou conta de meus pensamentos.
     Porque aquela moça chorava? E porque não dentro de casa, aonde olhos desconhecidos e curiosos não pudessem lhe atormentar?
    Talvez os olhos alheios não a incomodassem tanto quanto os de alguém em sua casa, de seus entes queridos. Ou talvez ela não percebesse que as pessoas podiam vê-la.
    Em pouco tempo comecei a tecer hipóteses sobre o que a fariam chorar. Algumas mais plausíveis como uma possível briga com um namorado, ou uma noticia ruim no emprego. Outras um pouco mais fantasiosas para nosso tempo e país, como estar sendo obrigada a se casar com um mercador rico e tendo que deixar seu grande amor para trás para agradar sua família.
     Enquanto divagava em meus pensamentos, não percebi o tempo passar, e logo meu ônibus chegara, só então percebi que estava atrasado.
    Corri para o ônibus me sentindo meio culpado, pois as lágrimas da jovem não me importavam mais, tudo que eu pensava agora era procurar um lugar para sentar.

A. Constantino Brandão

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