quarta-feira, 27 de abril de 2016

A Noite de um Imortal II: A Ameaça- Prólogo



Estacionei meu carro próximo ao hotel, conferi meu rosto no retrovisor, respirei fundo e sai. Caminhei pela calçada decidida a não mudar de ideia. Armei meu melhor e mais simpático sorriso e atravessei as portas de vidro. A recepcionista não era nenhuma que eu já tivesse visto antes, o que talvez fosse melhor.

              — Boa noite senhora, posso ajuda-la?

             — Boa noite! Eu sou a Renata, assistente do senhor Joah Fernandes que estava hospedado no quarto 221. Eu vim encerrar a conta dele— falei de forma confiante, utilizando um pouco das minhas habilidades para convencê-la da minha história.

                — O senhor Fernandes não irá retornar ao hotel?

                — Não, infelizmente ele teve uma reunião de última hora e precisou viajar as pressas. Vim a pedido dele apenas retirar seus pertences e fazer o check-out.

                A moça me olhou com ligeira desconfiança. Olhei direto em seus olhos castanhos e alarguei meu sorriso, torcendo para que meu estado emocional não interferisse.

                — Poderia ver o documento da senhora?

                — Eu já lhe mostrei, lembra-se?— eu nunca havia conseguido implantar uma memória em alguém, mas esperava apenas que ela ficasse confusa.

                — Ah sim claro, me desculpe!— disse ela após pensar um pouco, para meu alívio.

                A jovem, que o crachá dizia chamar-se Marina, demorou algum tempo digitando algumas informações no computador antes de voltar a falar comigo.

                — A senhora tem as chaves do quarto?

                — Tenho sim.

                — Precisara de ajuda com as malas?

               — Não será necessário! Mas agradeceria se você pudesse me passar à senha do cofre. Eu sou uma desmiolada e esqueci de anotar. Se eu ligar mais uma vez para meu chefe para perguntar, vou ouvir um sermão daqueles.

                Ela olhou novamente ressabiada para mim, o que me deixou preocupada. Mantive o contato visual durante todo nosso período de silencio, sem desviar um segundo sequer. Então ela finalmente voltou a digitar no computador e anotou a informação em um papel.

                — A conta será paga no cartão que já está no nosso sistema senhora?

                — Sim, obrigada!— e então eu peguei o elevador.

                Conhecia o ascensorista, mas não o cumprimentei. Só queria sair logo dali.

                Ao chegar de frente com a porta do quarto, precisei de alguns minutos antes de abri-la. Não queria entrar ali e perceber que ele não estava, e que a culpa era minha. Dentro do quarto o cheiro de lençóis limpos se confundia com o cheiro residual de sangue, da última vez que estivemos ali juntos, dois dias atrás. Eu precisava ser prática, entrar, pegar o que queria e sair, sem sentimentalismo, mas estava sendo mais difícil do que havia imaginado.

                Encontrei uma mala de tamanho razoável, onde joguei todas as roupas chiques e de marcas cara do Joah e da Patrícia, com o intuito de entregar para doação ou algo do tipo. Depois de separar as coisas de menor importância, abri o pequeno cofre que ficava dentro do closet. Retirei de lá todo o dinheiro, algo em torno de dezessete mil reais, todas as joias e uma caixa fina que estava trancada.

                Coloquei as coisas de valor na minha bolsa e me sentei com a caixa na cama. A trava era simples e frágil, mal precisei força-la para que abrisse. O cheiro de papel envelhecido inundou o ambiente. Dentro da caixa havia cartas antigas e alguns documentos de identidade, incluindo o meu, o da Patrícia e o do Luciano. Imaginei que pertenciam as pessoas que Joah tentara transformar. Aquilo era doentio.

                Abri uma das cartas que estava endereçada a Joah, de alguém chamado Andreoli, remetida de Portugal.


                “05 de setembro de 1970.

Ficamos muito desapontados em saber que não virás nos encontrar como havíamos combinado. O que estás acontecendo com você querido amigo? Preferes sofrer no calor deste país a ficar em nossa companhia? Por acaso sua afeição e consideração por nós já não é a mesma? Ou estás apenas receoso em conhecer Vivian? Se for este o caso, não tens com que se preocupar. Minha querida esposa sabe do apreço que temos por ti e com toda certeza irás conquistá-la da mesma forma que fizera conosco.
Lorenzo e eu estamos preocupados com você, além de saudosos. Assim que possível, pegue um avião e venha para Portugal. Estaremos a sua espera!

Com carinho de seus amigos Lorenzo e Andreoli”


                Esses deviam ser os vampiros de quem Joah não gostava que eu perguntasse. Aparentemente eles eram muito próximos. Peguei uma segunda carta, sabendo que não devia me demorar, mas sem conseguir conter minha curiosidade. Essa era escrita por Lorenzo.


                23 de novembro de 1968.

                Querido Joaquim, lhe escrevo essa carta sem o conhecimento de Andreoli, pois estou preocupado com nosso amigo.
                Recentemente conhecemos uma bela dama chamada Vivian, uma imortal poderosa, por quem Andreoli logo se apaixonou. Preocupo-me com toda a influência que ela tem sobre ele mesmo em tão pouco tempo. Sei que posso estar exagerando ou talvez deixando que o ciúme me afete, afinal senti o mesmo quando lhe conhecemos, mas não consigo deixar de me preocupar.
                Espero que possas vir nos encontrar logo, pois sinto que assim que conhecê-la você irá me entender. Às vezes penso que ela quer roubar nosso Andreoli só para ela, e isso eu não posso permitir.
                Sinto falta de quando éramos apenas nós três...

                Carinhosamente, Lorenzo.”


                O conteúdo da carta me deixara intrigada, não pelo fato de um possível romance entre Joah e esse dois vampiros com quem ele se correspondia, e sim porque queria saber o que havia se sucedido depois dessas cartas já tão antigas.

                Abri uma terceira carta, novamente escrita por Andreoli, dessa vez remetida da Itália.

               
                “07 de janeiro de 1968. 

Alegro-me imensamente de sua conquista querido amigo. Enfim conseguistes o que tanto almejava, enchendo-nos de orgulho e felicidade. Sabemos o quanto querias trazer um imortal a vida com seu próprio sangue.
Torcemos para que tua cria seja ainda mais bela nessa nova vida, que ela desfrute-a da mesma forma que um dia nós fizemos em nossa saudosa, ainda que eterna, juventude.
Ansiamos em conhecê-la, mas compreendemos seus ideais de deixa-la crescer sozinha, aprendendo assim o que é necessário para sobreviver neste mundo difícil e completamente novo.
Assim que reencontrar a jovem Elisabeth, venha nos visitar. Em breve partiremos novamente para nossa casa em Portugal, onde permaneceremos por tempo indeterminado. Lorenzo e eu estamos saudosos e aflitos para lhe rever. Décadas parecem ter se passado desde nosso último encontro.
Mande-nos noticias!

Com muita alegria dos seus amigos Lorenzo e Andreoli.”


            Era uma carta sobre mim. Comemoravam e saudavam Joah pela minha morte, como se aquilo fosse a realização de um sonho. Não sabia o que sentir, um misto de raiva e tristeza tomara conta de mim. Não queria chorar, ou talvez não pudesse, mas todo meu corpo tremia, amassando o pedaço de papel envelhecido em minhas mãos.

          Não sabia por que sentia falta dele, pois era mais do que claro que eu só tinha motivos para odia-lo.

           Guardei as cartas novamente na caixa e a coloquei dentro da bolsa, juntos com os pertences de valor que havia pegado.

Antes de sair do quarto, tentei me recompor em frente ao espelho. Não queria parecer nervosa para nenhum dos funcionários do hotel e muito menos para Luciano quando chegasse em casa. Ainda tinha uma tarefa difícil a cumprir, fazê-lo aceitar que usássemos todo o dinheiro de Joah para pagar nossas contas.

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