sexta-feira, 26 de julho de 2019

Quase trinta: expectativas de criança

A. Constantino Brandão criança

Quando crianças, é comum que nos perguntem o que queremos ser quando crescermos. Desde muito novos as pessoas nos fazem pensar sobre o futuro, sobre carreira e sobre família. Aos sete anos de idade, meus filhos ainda não nascidos já tinham nomes escolhidos.

O tempo vai passando e nosso planos para o futuro vão amadurecendo e se modificando, e isso é ótimo! 

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Atualmente tenho 27 anos e minha vida não está nada parecida com o que eu aos dez anos tinha imaginado. Obviamente, há coisas que eu gostaria que tivessem se concretizado, mas seria uma tortura tentar corresponder as expectativas de uma criança que não sabia absolutamente nada da vida.


Aos 11 anos eu achava que tinha decidido minha profissão e que assim que saísse do ensino médio iria direto para a faculdade. Quão desapontada ficaria essa Andressa ao saber que eu ainda não sei ao certo qual a minha carreira e que com quase trinta anos continuo estudando?

Mas tudo bem, a Andressa de 11 anos achava que o vestibular era fácil, que poderia terminar todos os estudos sem trabalhar e que iria conseguir um cargo logo depois de formada. Ela era ingênua e não tinha como imaginar como as coisas realmente funcionam no mundo adulto. Essa criança não tinha como saber que ao entrar na primeira faculdade iria gostar de diferentes áreas de estudo e que iria se apaixonar novamente pela escrita, deixando a decisão mais difícil.

O assunto "carreira" deixa muitos adultos entre os 20 e 30 anos nervosos. Afinal, como eu já disse anteriormente, somos bombardeados por essa pergunta desde sempre. Esperam que ao fim da escola tenhamos decidido o que fazer com as nossas vidas e tratam essa escolha como algo definitivo. Como se não pudêssemos trabalhar um pouco aqui e um pouco ali.

Atualmente estou na minha segunda faculdade, estudando letras. Amo minhas aulas e espero um dia poder trabalhar com livros. Mas talvez a Andressa de 37 tenha decidido outra coisa. E tudo bem!

Já tive essa conversa com diferentes amigos e muitos confirmaram que quando mais novos imaginavam que aos 20 anos seriam adultos de "sucesso", o que na nossa cabeça de criança significava: casa, carro e família formada.

Hoje, aos 27 anos, eu ainda não tenho uma casa própria. Ainda moro com os meus pais e divido uma cama de solteiro com meu noivo vários dias da semana. Mas tudo bem. A pequena Andressa não fazia ideia de quanto era preciso trabalhar para comprar uma casa.

Não digo que não quero mais uma casa. É claro que eu quero. Mas agora tenho mais consciência da dificuldade disso. Não preciso me apressar. Posso planejar isso tranquilamente, enquanto aproveito a companhia da minha família.  E quando acontecer, vai ser ótimo!

Alias, essa menininha achava que aos 20 anos estaria pronta  para ter filhos. Como minha mãe engravidara nessa idade e sempre tivemos uma boa relação eu pensava: quero ser uma mãe jovem também. Nunca havia passado pela cabeça da Andressinha que ela talvez nem quisesse a maternidade. Casar, engravidar e criar os filhos era apenas uma consequência da vida que ela foi ensinada a acreditar.

O carro também não aconteceu. A Andressa de hoje tem habilitação, mas não gosta de dirigir. Prefere andar de bicicleta ou até mesmo panguar olhando pela janela do ônibus.

Meus objetivos cresceram comigo. Foram se modificando de acordo com as mudanças que aconteceram na minha vida e na minha mente. Não é uma questão de desistir de sonhos e sim de adequação. Imagina só, se sem estar pronta, eu decidisse ser mãe aos 20 anos apenas para corresponder a expectativas que criei quando criança?

A pequena Andressa fez vários planos que não se concretizaram, mas alguns se realizaram e foram ainda melhores do que ela esperava. Eu fiz minha primeira faculdade na área de comunicação, como o planejado e lá fiz amizades verdadeiras e duradouras. Continuo amiga de pessoas que a Andressinha disse que levaria para a vida  toda. As mantive por perto e fortaleci esse laços. Ainda não me casei, mas tenho um ótimo e longo relacionamento com meu primeiro namorado e melhor amigo.

As coisas podem não ter saído exatamente como a Andressa criança queria, mas deu certo. Tudo isso faz parte do processo.

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Fazemos parte de uma geração cheia de autocobrança. Mesmo sabendo que não devemos, estamos sempre nos comparando com os outros e com aquilo que imaginamos que deveríamos ser, com o que deveríamos ter. Acreditamos que existe idade para tudo. Estamos sempre tentando medir nossas vidas por réguas que não fazem o menor sentido.

É quase impossível não criarmos expectativas, mas devemos nos ater as nossas próprias e pensar bem se elas são o que realmente queremos ou se estamos apenas incorporando a expectativas dos outros como nossa própria verdade.

Devemos sempre procurar nossa melhor versão, a constante evolução e o aprendizado. Mas também devemos pensar em tudo o que conquistamos, como e porque fizemos essas coisas. Reavaliar nossos objetivos, pois muitas vezes eles acabam se modificando no meio do caminho, e isso é ótimo. Se somos seres mutáveis, nossos sonhos também são.

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